Thursday, May 11, 2017

Como aprendi a ser feliz sozinha

          Com uma taça de vinho e uma festa rolando do outro lado da rua (a qual não irei), começo esse texto. Talvez seja só uma lista, um trecho de auto ajuda. Não decidi ainda, mas aqui estou eu escrevendo.
          Por muitas vezes, como muitos de nós já nos sentimos, pensei que não conseguiria fazer nada sozinha. Sempre achei reconfortante ter a companhia de alguém para esperar uma consulta ou resolver uma problema que requer pegar uma fila quilométrica. A solidão me ensinou que posso fazer o que quiser sozinha. Na falta da companhia para jantar, coloquei uma música que preenchia a casa e cozinhei para mim. Por muitas vezes fiz o suficiente para cinco pessoas, e por cinco dias comi a mesma coisa. Sozinha. Quando a calada da noite ficava muito barulhenta com meus pensamentos, joguei um filme na tela do meu computador. Quando quis ver gente, mas ninguém queria me ver, saí sozinha. Percorri as ruas, observei os prédios, senti a cidade, absorvi perfumes. Desenhei todas as paisagens em minhas histórias.
          Quando me senti carente, abracei minha cintura. Nos dias que nada parecia dar certo, fiz algo que infalivelmente me trouxesse alegria. Comprei uma blusa; li um livro; escrevi um texto; ajudei alguém; dancei no meu quarto, na sala, na cozinha, na varanda; fiz caretas para meu reflexo; sorri para o porteiro; elogiei um estranho; me joguei no mar. Quando a cama ia ficando muito grande só para mim, dei um jeito de preencher ela todinha. Mais travesseiros, pernas para um ponta, cabeça para outra. Nenhum vazio era grande demais para mim. Tentei compensar a falta de altura com um exagero de personalidade. Fiz amizades. Estar , me permitiu conhecer pessoas. Vagar sozinha me fez observar casais e querer ter aquilo para mim. Fez com que eu percebesse que ser uma observadora também pode ser o suficiente. Às vezes. Eu quis brincar com cachorrinhos na rua, brinquei; quis comer uma pizza inteira, comi; quis sentir os grãos de areia entre meus dedinhos no meio da madrugada, senti. Meu corpo me levou para todos os cantinhos do mundo que minha cabeça desejou.
          Estar sozinha é ter ninguém para te fazer desanimar das tuas vontades, mas, ao mesmo tempo, é ter que aprender a se colocar para cima, porque não há uma alma ali que fará isso por ti. Estar sozinha é aprender que teu corpo pode dar um basta nas tuas vontade. É conhecer teus músculos para saber quando eles cansam, conhecer teu coração para saber quando ele chora, e, especialmente, conhecer tua mente quando ela joga pedras na tua confiança.
We heart it
          Principalmente, meus caros, estar , não é se sentir . É, muitas vezes, se preencher de novas experiências e novas pessoas, mas também escolher ser sua própria companhia. É perceber que você pode se amar uns dias, e não conseguir nem se olhar no espelho em outros. Porém, entender que o espelho não te reflete por completo, que teus olhos não te mostram toda verdade. Entender que alguns dias podem ser ruins, mas que dias melhores vão chegar. Estar  é mergulhar de cabeça mesmo com medo, é nadar contra a corrente mesmo quando acha que não tem mais forças, é finalmente perceber que todo dia você se supera, se renova, se reinventa.
          Sozinha, aqui, percebi que menti no título. Eu não aprendi a ser feliz sozinha. Diaramente, tenho descoberto as maravilhas e as armadilhas da solidão. Descobri que palavras negativas podem se tornar positivas, e vice versa. Que elogios podem soar como insultos, e insultos podem te blindar. A solidão não me puxa para baixo, estar sozinha nem sempre é ruim. Às vezes, inclusive, é minha escolha. Eu estou a pren den do. Sílaba por sílaba. Pouquinho por pouquinho. Portanto, sem querer iludir ninguém, não tenho a fórmula da felicidade. Tenho apenas sugestões.
          Descobre o que te faz bem e usa ao teu favor. Não deixa que a mera ausência dos outros seja ausência de si também.

Saturday, April 29, 2017

Renovar

Queria poder dizer que a vida está tranquila quando perguntam como estou. Dizer que estou muito bem, obrigada. Infelizmente, a minha transparência continua límpida como sempre. Uma das minhas maiores qualidades, você dizia. Agora me impedindo de fingir um sorriso mesmo sabendo que sou uma péssima atriz. Todo mundo consegue ver os escombros que ficaram quando a gente disse adeus.
          5 meses e 10 dias. Todo o tempo que esperei você voltar sabendo que não tinha motivo. Todo tempo que quis que você renegasse sua vida para estar aqui. Olho para a cama bagunçada, e lembro-me de quando a arrumávamos para desarrumar novamente. Ainda sinto teu perfume nos meus lençóis, mesmo depois de ter lavado incontáveis vezes.
We heart it
          Juro que já procurei um tutorial de como te esquecer. Bom, não exatamente você. Somente um passo-a-passo de como apagar tanta angústia. A verdade é que eu simplesmente consigo ver teus sinais para onde meus olhos viajam. Todo vestígio de ti me lembra do lugar vago que deixou no meu sofá. O vazio de ti amassa meu coração como o mundo pesa nas costas de Atlas. Claramente uma maldição dos Deuses por eu não saber amar.
          Os erros se acumulavam em acidentes de uma via dupla. Interditamos irreparavelmente o caminho para qualquer reencontro. Eu já entendi bem o nosso desfecho, apenas não consegui digeri-lo ainda. Dá-me um tempo que logo supero nossa história. Dá-me um tempo que logo tua felicidade não vai fazer brotar minha dor. Vou cuidar do meu amor próprio e enraizar meu amor por ti. Podar direitinho cada galho para que teu sorriso também faça florescer o meu.

Wednesday, April 19, 2017

Como foi te conhecer

          Foi andar de mãos dadas com a saudade sem saber o que era vontade. Foi esquecer o passado e me perder no presente. Mergulhar nas tuas andanças mesmo com os pés cansados, porque acompanhar teus passos parece muito com construir os meus. Olhar nos teus olhos, encontrar teu brilho. Foi vestir meu próprio eu e me sentir bem assim.
          O som da tua risada me faz pensar que tenho as melhores piadas. Minha doidice se mistura com a tua. Sinto que as covinhas da tua bochecha se afundam mais quando estão comigo. E eu gosto de me afogar nas tuas histórias, pedindo um ar para respirar entre uma e outra. Teus relatos saíram de livros, arrisco dizer. Eu quero devorar tua biblioteca. Quero a seção que me alegra e me entristece, a que me surpreende e te enaltece. Quero, principalmente, a seção que te encontro, te jogo para o lado e me jogo também.
We Heart It
          Antes, tua rua não aparecia no meu mapa. Hoje, ela tem corpo e rosto. Cada vez que passo lá, sinto teu cheiro pairando em meu ar. O aconchego do teu lar me faz querer morar ali. As plantinhas do teu jardim combinam com minha vontade de cozinhar. Os teus quadros ainda não pendurados lembram meu dom de procrastinar. Às vezes penso em roubar teu travesseiro só para saber quais são teus sonhos. 
          Finalmente, teu toque. O inverno das tuas palmas no inferno da minha pele. Digno de quem congela ainda mais a minha frieza. No entanto, é tua contradição que me amarra. Tua habilidade de aquecer meus calos e aliviar minha dor. Teu remédio sem receita que deveria ser ilícito. 
          Menino, te conhecer foi querer ficar juntinho de ti e não querer fugir dali. Nosso encostar de mãos não me assusta. Nosso dormir de conchinha não me sufoca. Nosso entrelaçar de braços não me prende.
          

Monday, February 6, 2017

Sobre relacionamentos vazios

We heart it
          Comecei a enxergar tudo por uma outra perspectiva. Só depois de muito tempo me dei conta que seu braço repousava na minha cintura enquanto estava deitada. Parecia que sua presença não fazia diferença. Na verdade, aterrorizava. Senti como num filme de terror que a mão misteriosa vai encostando na mocinha e ela não sabe de onde veio. Após o susto, tudo some. Você não sumiu. Estava mesmo ali. E eu fiquei debatendo com meus sentidos e meu senso. Queria entender o que aquilo significava. Por tantas vezes estive envolta de pessoas e me sentia só. Situação tal que me desmontava e me rebaixava ao buraco que sempre cavo mais fundo. Dessa vez foi diferente. Antes me sentia o acessório dispensável. Dessa vez, você era o chaveiro que de nada servia para abrir a porta. Inutilmente, eu também estava desprovida dessa capacidade.
          Dois cacos de vidro que não havia cola que juntasse. Bordas que não eram compatíveis, não importava as diferentes formas de encaixe. Duas paredes que não sustentavam teto algum, abandonadas e paralelas. Assumindo diferentes cores, apenas para disfarçar as ranhuras. Percebi que você não interfere em mim. Tua função na minha vida não é diretamente proporcional à minha visão de mim mesma. Você pode estar ali na cadeira ao lado, ou na cidade seguinte. Tua presença não vai mudar meu ser e estar. Eu tenho que ser antes mesmo de você conseguir me ver, Você tem que estar antes mesmo de eu perceber. De nada adianta um gato correndo atrás do próprio rabo. Enquanto você for meu espelho, não serei própria. Na tentativa de ser o reflexo do que você precisa, eu acabo por perder o que sou. Esquecendo de te mostrar tudo que dentro de mim há. Criando assim uma série de imagens superpostas de possibilidades irreais. Dois espelhos tentando se refletir, acabam se perdendo em si.
          Você sumiu e eu também. Minha cabeça no teu peito e nenhum coração batendo. Teu corpo colado no meu e nenhum calor sentido. Dois cacos em uma casa sem telhado. Duas paredes querendo mais tijolos para se encontrarem. Dois pedacinhos de vidro se quebrando para se encaixar de qualquer forma. Duas pessoas querendo mais, quando já tinha o suficiente dentro de si.

Monday, October 3, 2016

Fado

      Os absurdos dos atos inocentes removem qualquer paixão platônica do altar. Beijos sem mordidas, abraços sem apertos, olhares sem sorrisos, risadas sem lágrimas. Como confiar em pessoas que só sabem fazer um sem o outro? Consigo imaginar o vazio de cada ação e tocar apenas a superfície. Mesquinhar amor é uma das piores "qualidades" do animal racional. Tanto orgulho em ser diferente, mas só sabemos usar o pensamento para poucos muitos. Pouco amor com muito sofrimento, pouca autoestima com muita automutilação. Temos uma capacidade infindável de entortar palavras e entender tudo errado. Pensar demais no que é simples de entender, e raciocinar pouco para o que exige maior dedicação. A gente inverte o mundo de ponta cabeça, depois exige que alguém coloque no lugar.
WeHeartIt
      Os exageros dos atos inocentes tiram de vista qualquer paixão platônica. Beijos sem nome, abraço sem destino, olhar sem filtro, risada sem sinceridade. "Forçar a barra" nunca descreve situações agradáveis. Ninguém quer ser o sujeito dessa frase e a gente sempre procura não fazer por onde. Ou pelo menos assim pensamos. Não conhecer nossos limites, faz com que a gente esqueça de perguntar o limite dos outros. O egocentrismo -que também não tem qualquer conotação positiva- faz a gente querer entender nosso umbigo achando que pode meter o dedo no umbigo do outro. Exceder é muito diferente de ir além. O "ir além" é poético e heroico, o "exceder" fadiga e machuca. Dois extremos com mesmo significado. Certamente, desculpa para continuar confundindo.
      A violência dos atos inocentes esmaga todo e qualquer tipo de amor. Beijos com sangue, abraço com sufoco, olhar com ira, risada com medo. Calcular cada detalhe para não exceder o limite de curto pavio do outro. Ir além, para entender, mas mesmo assim não achar explicações. Viver se enganando, repetindo que é amor, para no fim, se render a dor, seja reconhecendo a incapacidade do outro de cuidar, ou parando de respirar. A fatalidade desses atos "inocentes" já levou muito de muitos. Já desordenou casas, vidas, sistemas, prisões.
      Só sei que precisamos ir além para dar um basta em excedentes.

Thursday, September 29, 2016

Tolerância


      A vida é um negócio engraçado que ninguém ri no fim. Fazemos promessas que não conseguimos cumprir, negligenciamos aqueles que mais amamos, valorizamos quem não nos traz nada positivo. Mas também acertamos, ajudamos um amigo necessitado, ajudamos um desconhecido desesperado, compartilhamos sorrisos e abraços. A vida nos ensina de monte pra no fim, nada?
      Hoje me perguntei se o que a gente aprende na vida é de fato para nosso crescimento pessoal a longo prazo.Veja bem, no longo longo prazo você provavelmente não vai mais estar respirando, mas muitas pessoas que você conheceu estarão. Tudo que você fez a ou para alguém vai influenciar na construção do caráter dessa pessoa e do seu. Pode ser um algo aparentemente banal, mas que para aquela pessoa muda a direção do rio. Sobe a nascente e recomeça. Cada pessoa reage de maneira variada à cada estímulo. E aí está a beleza e dificuldade da diversidade. Robotizar facilitaria todos os protocolos sociais, mas deixaria tudo tão previsível e puramente chato. O nosso legado é buscar cada vez mais fugir do automático, aprender a conviver com as diferenças e cultuar a diversidade. Nossa herança é a força para ir contra a corrente do legal-chato, emocionante-massante, diferentes-clones. Algo que parece difícil de garantir, mas, na real, nada há de difícil em ser quem você é e respeitar os que não são você.
      Mais uma vez, as diferenças podem dificultar o convívio. E por que devemos nos incomodar com uma ou duas pedras no caminho? Invés de atirar pedras uns nos outros, podemos tirá-las do caminho juntos. Que tal aliar as diferenças e diminuir as complicações? Que tal se permitir enxergar as situações com os olhos de outro alguém? Que mal já foi levado a alguém que se colocou no lugar do próximo? Até onde eu sei, há apenas engrandecimento e amadurecimento. Estreitamento dos laços. Ganho de amizades. Conquista de sorrisos. Lenço para lágrimas. Espaço para abraços.
      O medo de falhar nos impede de tentar, o medo de ser ignorado nos impede de falar. A gente deve tentar, procurando não errar. Deve falar, mas depois de pensar. Não medir palavras às vezes é mais fatal que ficar calado. Omitir-se às vezes é mais fatal que falar besteira. Percebam a sutil diferença entre as duas afirmações antes de dizer que estou falando contradições. Se não tiver percebido, leia de novo e de novo, até entender. Se não entende, pede pro colega ao lado explicar. Fala! Não se torne um ser ignorante por medo de ser ignorado.
      Em um resumo bem resumido das palavras acima, o que quero dizer é que a maior riqueza de nosso testamento vai ser o respeito. Enquanto a gente desrespeitar, não vai ser só difícil conviver, será difícil existir.

Thursday, September 15, 2016

Descuido

          Há duas semanas a decisão do "adeus" se concretizou e foi cruel. Como tempestade você veio e deixou destroços. Vacilo o meu que não soube zelar seu amor e cuidar do teu afeto. O medo de sofrer e te machucar foi maior que a vontade de sorrir ao teu lado. E, por isso, peço perdão.
          Tem sido difícil ficar aqui olhando para um teto branco sem luz no fim do dia. Tenho ponderado todas as opções. Criei planos mirabolantes para te conquistar, nenhum deles infalível o suficiente. A fatalidade das minhas atitudes inconscientes é agora o meu carma. Venho tentando procurar palavras, gestos e loucuras de amor para reparar o que quebrei sem perceber. Para colar de volta os pedaços do seu coração que quebrei tão silenciosamente.
           Olha, eu sei que você não está mais só. Sei que agora tem um alguém ao seu lado e sem medo de segurar sua mão em público. Falando assim parece que eu tinha medo. Não era bem isso. Eu hesitava. Hesitava mostrar para o mundo o que eu era, sou, capaz de sentir por alguém. Eu não tinha e nem tenho medo de que nos vejam. Tenho medo de me expor. Sabe o que é você se jogar na boca do povo e apenas receber vaias? Esse é meu medo. Tenho medo do palco que a vida coloca a gente.
          Por duas semanas venho pensando em todas as minhas falhas. Cheguei a conclusões não muito agradáveis, confesso. Tudo vem se resumindo a frase clichê de términos de relacionamento. A frase que vou dizer sem medo, visto que não fui eu quem colocou o ponto final: o problema sou eu, não você. E é verdade. A minha insegurança excedeu meu amor próprio. A falta de amor próprio não me permitiu dedicação ao meu amor por você. A busca incessante do amor pelo espelho, não me permitiu enxergar além dele. Não era narcisismo, só mais um caso crônico de insegurança.
          Não tenho preparo para te receber em meus braços, pois ainda estou tentando encontrar meu abraço. Quero me enlaçar no conhecimento próprio antes de te oferecer o mundo. Afinal, se te convido à minha casa, é melhor que eu a conheça muito bem para que não tenha surpresas nem armadilhas. No momento, tudo que me resta é pedir perdão. Logo, assim espero, poderei oferecer um pagamento com juros e correção. Você tem o direito e, talvez, o dever de me recusar, mas uma promessa te faço desde já, estou mirando no Sol para encher teu céu de luz e clareza. Cansei dessa de mirar nas nuvens.