Thursday, August 2, 2018

Por ventura

          Eles se cumprimentaram com olhares desatentos. Conversaram com a preocupação de quem se balança na rede com a brisa do mar. Os corpos já magnetizados sem aviso prévio. Entre uma risada e um arrepio. No desejo mútuo e tímido. Na vontade dele de viajar nas curvas do cabelo dela. Na curiosidade dela de descobrir o sabor dele.
          Como se o vento fosse mais forte que o medo, como se o toque fosse mais suave que o frescor da chuva. Os lábios vagarosamente se sentiram. A pele que há tempos fervia, pareceu evaporar. As mentes, quase cambaleando, não sustentaram as regras. Sem cerimônias, sem tratos, sem roupas. No escuro do silêncio, mas ouvindo todo suspiro. Corpos familiarizados demais para nunca terem se conhecido.
          Ambos sem compreender a inativação dos próprios costumes. Amanheceu, e ele ainda estava ali. O sol raiou, e ela ainda não havia se sentido estrangulada nos braços dele. Os dois soltos em si, um no outro. O braço dele, involuntário, apertou a cintura dela. Puxou aquele aroma para mais perto de si. A mão dela, involuntária, apanhou a dele. Levou para a ponta do seu beijo. Ambos sorrindo sem saber da felicidade do outro.
We Heart It
          Sem pressa, mas também despreocupados com a perfeição. Os planos para os minutos subsequentes pareciam ser regidos apenas pelos anseios recíprocos. A vontade de um dia seguinte só iria ser descoberta na ausência. Nenhum deles estava preparado para o desmanche. Mal sabiam o que fazer com o que havia restado. Ela foi deixando ele guiar. Ele temEu levá-la para o caminho errado. No entanto, nenhum deles
conhecia a trilha. Sem migalhas para voltar, muito menos para ir. Deram o primeiro passo juntos num "bom dia" uníssono.

Wednesday, December 20, 2017

Fim de semana

WeHeartIt
        Luz do luar entrava pelas frestas da tua cortina improvisada feita de lençol. Nossos corpos, que deveriam tremer sem cobertas, suavam enquanto nossas almas se aqueciam. Cada beijo perfeitamente posicionado para provocar os mais intensos suspiros. Minhas mãos deslizando pela maciez da tua pele. Meus fios compridos no caminho dos nossos olhares. Êxtases desencontrados, ainda que cheios de deleite. Eu primeiro, eu segundo, você terceiro. Nossos músculos exaustos. Nossos quadris despertando mais desejo. O sono, no entanto, foi o único desfecho possível.
         Abri meus olhos para o sol iluminando timidamente o sabor dos teus lábios silenciosos. Tuas pernas enlaçando as minhas, enquanto eu observava com calma cada detalhe que a noite me fez perder. A ponta do meu indicador percorrendo levemente a sinuosidade da tua orelha ligada à rigidez do teu maxilar. Cautelosamente, todos os meus dedos encontraram a raiz do teu cabelo. Você se mexeu de leve, mas sem qualquer sinal de desconforto. Teus olhos abriram meu sorriso. O caramelo da tua íris se misturou com os nuances do teu rosto. Tuas pálpebras piscavam como quem não acreditava no que via. Eu continuei ali. Teu laço se estreitou. Eu senti amor. Nossos corpos disseram "bom dia" sem nossas vozes se manifestarem. Ali ficamos. Presos por alguns instantes na paralisação de um domingo qualquer. Sorte a nossa que era segunda.
         

Monday, December 4, 2017

Amargor

          Meu bem, deixa. Esquece que o que a gente viveu foi tão bom que dá vontade de voltar. Descarta a vontade de pegar o telefone e ouvir minha voz. Você nunca foi de insistir, não começa agora. Vai por mim, não escolhe a gente. Talvez tua felicidade seja mais sincera quando não estou ao teu lado. Segue em frente e me deixa para trás. Não petrifica tua vida por um último olhar.
WeHeartIt
          Apaga da tua pele os calafrios que minhas mãos te provocaram. De nada mais valem esses arrepios solitários. Despreza os perfumes que te lembram a gente: o feijão na panela, o detergente de coco, o amaciante dos lencóis, meu xampu com cherinho de verão. Cada momento do nosso dia resumido em aromas que tu não deve mais aproveitar comigo. Muda teu cardápio, lava os pratos com sabão neutro, não mais amacia os lençóis, sente o inverno. Faz o que for preciso para não lembrar das nossas risadas na calada da noite. Nem pense em juntar os travesseiros para fazer um projeto de mim. Esquece os caminhos das minhas curvas. Não lembra de como eu implorava por misericórdia quando teus dedos me faziam cócegas, muito menos de como teus braços me envolviam pedindo perdão pela brincadeira, ou de minhas rugas de aborrecimento que pouco duravam.
          Não se importa com tudo que me fez sentir. Chegou de mansinho, sem alarmar minhas defesas, desarmou meu forte, adentrou meu castelo e ali fez morada. Abriu as janelas, iluminou o lugar. Deixou o sol pegar fogo aqui dentro. Fez meu amor por ti arder. Ardeu que machucou. Ardeu que chorei. Vai. Não precisa voltar. Dos escombros cuido eu. Vai com calma, vai bem. Encontra a felicidade que tu procurou em mim. Busca exatamente tudo aquilo que eu pensei que tinha visto nos meus olhos. Esquece o calor do meu pescoço, a maciez dos meus lábios. Se desprende das memórias boas que guardamos juntos. Não tem porquê insistir em um amor tão inesperadamente suave. As coisas instantâneas dificilmente são de qualidade. Teu riso imediato comigo, tua paz garantida em mim. Não, não vale a pena ficar.
          Fica tranquilo. Ignora as ironias. Não precisa explicar o sumiço. Só te peço que quando sumir da vida das pessoas, não volte. Elas não precisam de mais interrogações sem pontos finais. Também não vem me perguntar como eu estou. Ninguém precisa fingir que se preocupa, quando na verdade a única atitude que conhece é fugir. Meu questionário ainda está em branco. Eu ainda não encontrei as respostas. Se for para voltar de mãos vazias, fica aí, meu bem. Esse corpo aqui vai se acostumar com a ausência do teu. Só minha alma que não vai esquecer a dor.
          Quando te vier o súbito desejo de saber o que poderia ser da gente se tu não tivesse sumido. Quando as tuas mãos ficarem cansadas de tanto cavar razões plausíveis para ter ido. Quando uma lágrima de saudade cair. Deixa.

Monday, October 9, 2017

Falsa liberdade

          Queria poder te ver e te dizer que não posso mais viver assim. Queria poder ouvir na tua voz todas as palavras que me libertam dessa prisão. O cerco foi tão bem construído que mesmo depois de abrir o cadeado, eu não consegui sair. Não parecia certo pisar fora enquanto tudo que era meu ficaria ali. Os pedacinhos que me foram arrancados enquanto estive presa não viriam comigo. Eu preciso que você me diga que eu posso carregá-los em meus braços quando disser adeus. Decerto ainda não sei como colocá-los de volta, mas pelo menos vou ter muito tempo para descobrir. Sem eles, de nada me adianta esse tempo.
VK
          Não é Síndrome de Estocolmo. Garanto-lhe que você não fará falta. Não escolhi ficar por pensar que preciso de você comigo. Não escolhi ficar. Eu não sei ir pela metade. É como se uma perna estivesse imóvel, e a outra nem estivesse aqui. Se fosse escolha, eu já estava bem longe de ti. Porém, você ainda tem que me devolver a minha essência. Ninguém mais tem o que você roubou. Teu prêmio nada te serve. Ele só tem sentido em mim. Talvez seja isso. Você não quer me ver sentir. Você quer me dar a falsa ideia de liberdade, enquanto continua sua maior tortura. Sabe bem que as grades nunca me incomodaram. Você soube bem como passar minha determinação em um ralador, e despedaçar até os últimos resquícios.
          Decidi arriscar. Vou para não mais voltar. Sem olhar para trás, vou memorizar cada lasquinha que me falta. Vou resistir às dificuldades, como resisti aqui. Vou crescer, me remontar, me refazer. Depois que me sentir completa, vou me encher ainda mais. Nunca mais quero ser vítima de tormentos como esse, muito menos me sentir culpada pelas consequências. Vou aprender que o que passou também me construiu. Não fiquei negativada. Pelo contrário, cada parcela que me foi roubada ajudou a criar uma nova. Cada vacilo que cometi, me gerou reflexão. Meu conjunto de reflexões vai me ajudar a ganhar de volta toda confiança que arrancou. Não tenho mais medo. Você ganhou muitas batalhas, você fraquejou minhas barreiras, até destruiu algumas, mas não matou o principal: minha vontade.

Sunday, September 24, 2017

Como de costume

          Eu sempre volto a você.
Resilience
          Estava distraído e sem muita expectativa. No entanto, conheci alguém. Ela, diferente de você, me tirou do chão e me ensinou a voar. Flutuávamos perfeitamente dia após dia, e toda aquela sintonia foi ficando muito previsível. Cansei e pensei em você.
          Na segunda empreitada, me joguei em algo novo. Ele foi paciente com meus medos, e levou tranquilamente minhas angústias. Viu minhas feridas, e sentiu amor. Eu fui e sou grato por tudo que ele me doou, mas não pude ser nem metade do que ele merecia. Maior parte de mim ainda estava em ti.
          Os meus monstros fui expulsando do meu estômago noites a fio. Foi quando me apaixonei por algo destrutivo. Ele me fazia esquecer momentaneamente toda dor, para poucas horas depois me revirar por inteiro e latejar até o dia seguinte. De longe, o meu relacionamento mais abusivo. Ele me ajudou a chorar por ti.
          Como fugi dessa última armadilha, ainda não sei. A mémoria dele ficou embaçada depois de tanto usar lágrimas como lentes. Por isso, a quarta parte dessa história foi fundamental. Ela me viu como um passarinho de asa machucada. Parecia que sabia que eu não iria ficar, mesmo assim me ajudou com os curativos. Quando viu que eu podia voar sozinho, ela me deixou ir. Foi aí que eu voei sem ti. Eu voei sozinho.
          Com o vento passando pelo meu corpo, senti meu peso diminuir. Parecia que ele arrancava de mim o que era teu. Tanta coisa que me apeguei por tanto tempo, e mal sabia que nem iria fazer falta. A sensação de viver só com o que me pertencia já não me vinha há muito tempo. Foi vazio no começo. Eu parecia um apartemento sem móveis. Então descobri a vantagem em tudo isso. Finalmente, ninguém me habitava. Só havia eu mesmo. Minha luz, minha escuridão, minha poeira, meu vazio tão cheio de mim. Meu próprio ar.
          Na rua, você passou. Olhou dentro de mim, e não viu mais teus pertences ali. Dessa vez, você voltou a mim. Sabe de uma coisa? Teu terremoto não me demoliu. Ele sequer me estremeceu. Não ali, não mais. Mesmo que criasse um novo nível na escala Richter, não havia qualquer coisa que pudesse quebrar.
          Eu me reconstruí. As ruínas viraram estátuas do passado. A imobilidade das lembranças me permitiu finalmente dançar a minha própria canção. A minha voz finalmente pode cantarolar. Meus lábios podem sorrir. Meus olhos podem enxergar o que quiserem. E agora, eles só vêem o que preciso para continuar esculpindo estátuas cada vez mais belas.

Thursday, May 11, 2017

Como aprendi a ser feliz sozinha

          Com uma taça de vinho e uma festa rolando do outro lado da rua (a qual não irei), começo esse texto. Talvez seja só uma lista, um trecho de auto ajuda. Não decidi ainda, mas aqui estou eu escrevendo.
          Por muitas vezes, como muitos de nós já nos sentimos, pensei que não conseguiria fazer nada sozinha. Sempre achei reconfortante ter a companhia de alguém para esperar uma consulta ou resolver uma problema que requer pegar uma fila quilométrica. A solidão me ensinou que posso fazer o que quiser sozinha. Na falta da companhia para jantar, coloquei uma música que preenchia a casa e cozinhei para mim. Por muitas vezes fiz o suficiente para cinco pessoas, e por cinco dias comi a mesma coisa. Sozinha. Quando a calada da noite ficava muito barulhenta com meus pensamentos, joguei um filme na tela do meu computador. Quando quis ver gente, mas ninguém queria me ver, saí sozinha. Percorri as ruas, observei os prédios, senti a cidade, absorvi perfumes. Desenhei todas as paisagens em minhas histórias.
          Quando me senti carente, abracei minha cintura. Nos dias que nada parecia dar certo, fiz algo que infalivelmente me trouxesse alegria. Comprei uma blusa; li um livro; escrevi um texto; ajudei alguém; dancei no meu quarto, na sala, na cozinha, na varanda; fiz caretas para meu reflexo; sorri para o porteiro; elogiei um estranho; me joguei no mar. Quando a cama ia ficando muito grande só para mim, dei um jeito de preencher ela todinha. Mais travesseiros, pernas para um ponta, cabeça para outra. Nenhum vazio era grande demais para mim. Tentei compensar a falta de altura com um exagero de personalidade. Fiz amizades. Estar , me permitiu conhecer pessoas. Vagar sozinha me fez observar casais e querer ter aquilo para mim. Fez com que eu percebesse que ser uma observadora também pode ser o suficiente. Às vezes. Eu quis brincar com cachorrinhos na rua, brinquei; quis comer uma pizza inteira, comi; quis sentir os grãos de areia entre meus dedinhos no meio da madrugada, senti. Meu corpo me levou para todos os cantinhos do mundo que minha cabeça desejou.
          Estar sozinha é ter ninguém para te fazer desanimar das tuas vontades, mas, ao mesmo tempo, é ter que aprender a se colocar para cima, porque não há uma alma ali que fará isso por ti. Estar sozinha é aprender que teu corpo pode dar um basta nas tuas vontade. É conhecer teus músculos para saber quando eles cansam, conhecer teu coração para saber quando ele chora, e, especialmente, conhecer tua mente quando ela joga pedras na tua confiança.
We heart it
          Principalmente, meus caros, estar , não é se sentir . É, muitas vezes, se preencher de novas experiências e novas pessoas, mas também escolher ser sua própria companhia. É perceber que você pode se amar uns dias, e não conseguir nem se olhar no espelho em outros. Porém, entender que o espelho não te reflete por completo, que teus olhos não te mostram toda verdade. Entender que alguns dias podem ser ruins, mas que dias melhores vão chegar. Estar  é mergulhar de cabeça mesmo com medo, é nadar contra a corrente mesmo quando acha que não tem mais forças, é finalmente perceber que todo dia você se supera, se renova, se reinventa.
          Sozinha, aqui, percebi que menti no título. Eu não aprendi a ser feliz sozinha. Diaramente, tenho descoberto as maravilhas e as armadilhas da solidão. Descobri que palavras negativas podem se tornar positivas, e vice versa. Que elogios podem soar como insultos, e insultos podem te blindar. A solidão não me puxa para baixo, estar sozinha nem sempre é ruim. Às vezes, inclusive, é minha escolha. Eu estou a pren den do. Sílaba por sílaba. Pouquinho por pouquinho. Portanto, sem querer iludir ninguém, não tenho a fórmula da felicidade. Tenho apenas sugestões.
          Descobre o que te faz bem e usa ao teu favor. Não deixa que a mera ausência dos outros seja ausência de si também.

Saturday, April 29, 2017

Renovar

Queria poder dizer que a vida está tranquila quando perguntam como estou. Dizer que estou muito bem, obrigada. Infelizmente, a minha transparência continua límpida como sempre. Uma das minhas maiores qualidades, você dizia. Agora me impedindo de fingir um sorriso mesmo sabendo que sou uma péssima atriz. Todo mundo consegue ver os escombros que ficaram quando a gente disse adeus.
          5 meses e 10 dias. Todo o tempo que esperei você voltar sabendo que não tinha motivo. Todo tempo que quis que você renegasse sua vida para estar aqui. Olho para a cama bagunçada, e lembro-me de quando a arrumávamos para desarrumar novamente. Ainda sinto teu perfume nos meus lençóis, mesmo depois de ter lavado incontáveis vezes.
We heart it
          Juro que já procurei um tutorial de como te esquecer. Bom, não exatamente você. Somente um passo-a-passo de como apagar tanta angústia. A verdade é que eu simplesmente consigo ver teus sinais para onde meus olhos viajam. Todo vestígio de ti me lembra do lugar vago que deixou no meu sofá. O vazio de ti amassa meu coração como o mundo pesa nas costas de Atlas. Claramente uma maldição dos Deuses por eu não saber amar.
          Os erros se acumulavam em acidentes de uma via dupla. Interditamos irreparavelmente o caminho para qualquer reencontro. Eu já entendi bem o nosso desfecho, apenas não consegui digeri-lo ainda. Dá-me um tempo que logo supero nossa história. Dá-me um tempo que logo tua felicidade não vai fazer brotar minha dor. Vou cuidar do meu amor próprio e enraizar meu amor por ti. Podar direitinho cada galho para que teu sorriso também faça florescer o meu.

Wednesday, April 19, 2017

Como foi te conhecer

          Foi andar de mãos dadas com a saudade sem saber o que era vontade. Foi esquecer o passado e me perder no presente. Mergulhar nas tuas andanças mesmo com os pés cansados, porque acompanhar teus passos parece muito com construir os meus. Olhar nos teus olhos, encontrar teu brilho. Foi vestir meu próprio eu e me sentir bem assim.
          O som da tua risada me faz pensar que tenho as melhores piadas. Minha doidice se mistura com a tua. Sinto que as covinhas da tua bochecha se afundam mais quando estão comigo. E eu gosto de me afogar nas tuas histórias, pedindo um ar para respirar entre uma e outra. Teus relatos saíram de livros, arrisco dizer. Eu quero devorar tua biblioteca. Quero a seção que me alegra e me entristece, a que me surpreende e te enaltece. Quero, principalmente, a seção que te encontro, te jogo para o lado e me jogo também.
We Heart It
          Antes, tua rua não aparecia no meu mapa. Hoje, ela tem corpo e rosto. Cada vez que passo lá, sinto teu cheiro pairando em meu ar. O aconchego do teu lar me faz querer morar ali. As plantinhas do teu jardim combinam com minha vontade de cozinhar. Os teus quadros ainda não pendurados lembram meu dom de procrastinar. Às vezes penso em roubar teu travesseiro só para saber quais são teus sonhos. 
          Finalmente, teu toque. O inverno das tuas palmas no inferno da minha pele. Digno de quem congela ainda mais a minha frieza. No entanto, é tua contradição que me amarra. Tua habilidade de aquecer meus calos e aliviar minha dor. Teu remédio sem receita que deveria ser ilícito. 
          Menino, te conhecer foi querer ficar juntinho de ti e não querer fugir dali. Nosso encostar de mãos não me assusta. Nosso dormir de conchinha não me sufoca. Nosso entrelaçar de braços não me prende.
          

Monday, February 6, 2017

Sobre relacionamentos vazios

We heart it
          Comecei a enxergar tudo por uma outra perspectiva. Só depois de muito tempo me dei conta que seu braço repousava na minha cintura enquanto estava deitada. Parecia que sua presença não fazia diferença. Na verdade, aterrorizava. Senti como num filme de terror que a mão misteriosa vai encostando na mocinha e ela não sabe de onde veio. Após o susto, tudo some. Você não sumiu. Estava mesmo ali. E eu fiquei debatendo com meus sentidos e meu senso. Queria entender o que aquilo significava. Por tantas vezes estive envolta de pessoas e me sentia só. Situação tal que me desmontava e me rebaixava ao buraco que sempre cavo mais fundo. Dessa vez foi diferente. Antes me sentia o acessório dispensável. Dessa vez, você era o chaveiro que de nada servia para abrir a porta. Inutilmente, eu também estava desprovida dessa capacidade.
          Dois cacos de vidro que não havia cola que juntasse. Bordas que não eram compatíveis, não importava as diferentes formas de encaixe. Duas paredes que não sustentavam teto algum, abandonadas e paralelas. Assumindo diferentes cores, apenas para disfarçar as ranhuras. Percebi que você não interfere em mim. Tua função na minha vida não é diretamente proporcional à minha visão de mim mesma. Você pode estar ali na cadeira ao lado, ou na cidade seguinte. Tua presença não vai mudar meu ser e estar. Eu tenho que ser antes mesmo de você conseguir me ver, Você tem que estar antes mesmo de eu perceber. De nada adianta um gato correndo atrás do próprio rabo. Enquanto você for meu espelho, não serei própria. Na tentativa de ser o reflexo do que você precisa, eu acabo por perder o que sou. Esquecendo de te mostrar tudo que dentro de mim há. Criando assim uma série de imagens superpostas de possibilidades irreais. Dois espelhos tentando se refletir, acabam se perdendo em si.
          Você sumiu e eu também. Minha cabeça no teu peito e nenhum coração batendo. Teu corpo colado no meu e nenhum calor sentido. Dois cacos em uma casa sem telhado. Duas paredes querendo mais tijolos para se encontrarem. Dois pedacinhos de vidro se quebrando para se encaixar de qualquer forma. Duas pessoas querendo mais, quando já tinha o suficiente dentro de si.

Monday, October 3, 2016

Fado

      Os absurdos dos atos inocentes removem qualquer paixão platônica do altar. Beijos sem mordidas, abraços sem apertos, olhares sem sorrisos, risadas sem lágrimas. Como confiar em pessoas que só sabem fazer um sem o outro? Consigo imaginar o vazio de cada ação e tocar apenas a superfície. Mesquinhar amor é uma das piores "qualidades" do animal racional. Tanto orgulho em ser diferente, mas só sabemos usar o pensamento para poucos muitos. Pouco amor com muito sofrimento, pouca autoestima com muita automutilação. Temos uma capacidade infindável de entortar palavras e entender tudo errado. Pensar demais no que é simples de entender, e raciocinar pouco para o que exige maior dedicação. A gente inverte o mundo de ponta cabeça, depois exige que alguém coloque no lugar.
WeHeartIt
      Os exageros dos atos inocentes tiram de vista qualquer paixão platônica. Beijos sem nome, abraço sem destino, olhar sem filtro, risada sem sinceridade. "Forçar a barra" nunca descreve situações agradáveis. Ninguém quer ser o sujeito dessa frase e a gente sempre procura não fazer por onde. Ou pelo menos assim pensamos. Não conhecer nossos limites, faz com que a gente esqueça de perguntar o limite dos outros. O egocentrismo -que também não tem qualquer conotação positiva- faz a gente querer entender nosso umbigo achando que pode meter o dedo no umbigo do outro. Exceder é muito diferente de ir além. O "ir além" é poético e heroico, o "exceder" fadiga e machuca. Dois extremos com mesmo significado. Certamente, desculpa para continuar confundindo.
      A violência dos atos inocentes esmaga todo e qualquer tipo de amor. Beijos com sangue, abraço com sufoco, olhar com ira, risada com medo. Calcular cada detalhe para não exceder o limite de curto pavio do outro. Ir além, para entender, mas mesmo assim não achar explicações. Viver se enganando, repetindo que é amor, para no fim, se render a dor, seja reconhecendo a incapacidade do outro de cuidar, ou parando de respirar. A fatalidade desses atos "inocentes" já levou muito de muitos. Já desordenou casas, vidas, sistemas, prisões.
      Só sei que precisamos ir além para dar um basta em excedentes.

Thursday, September 29, 2016

Tolerância


      A vida é um negócio engraçado que ninguém ri no fim. Fazemos promessas que não conseguimos cumprir, negligenciamos aqueles que mais amamos, valorizamos quem não nos traz nada positivo. Mas também acertamos, ajudamos um amigo necessitado, ajudamos um desconhecido desesperado, compartilhamos sorrisos e abraços. A vida nos ensina de monte pra no fim, nada?
      Hoje me perguntei se o que a gente aprende na vida é de fato para nosso crescimento pessoal a longo prazo.Veja bem, no longo longo prazo você provavelmente não vai mais estar respirando, mas muitas pessoas que você conheceu estarão. Tudo que você fez a ou para alguém vai influenciar na construção do caráter dessa pessoa e do seu. Pode ser um algo aparentemente banal, mas que para aquela pessoa muda a direção do rio. Sobe a nascente e recomeça. Cada pessoa reage de maneira variada à cada estímulo. E aí está a beleza e dificuldade da diversidade. Robotizar facilitaria todos os protocolos sociais, mas deixaria tudo tão previsível e puramente chato. O nosso legado é buscar cada vez mais fugir do automático, aprender a conviver com as diferenças e cultuar a diversidade. Nossa herança é a força para ir contra a corrente do legal-chato, emocionante-massante, diferentes-clones. Algo que parece difícil de garantir, mas, na real, nada há de difícil em ser quem você é e respeitar os que não são você.
      Mais uma vez, as diferenças podem dificultar o convívio. E por que devemos nos incomodar com uma ou duas pedras no caminho? Invés de atirar pedras uns nos outros, podemos tirá-las do caminho juntos. Que tal aliar as diferenças e diminuir as complicações? Que tal se permitir enxergar as situações com os olhos de outro alguém? Que mal já foi levado a alguém que se colocou no lugar do próximo? Até onde eu sei, há apenas engrandecimento e amadurecimento. Estreitamento dos laços. Ganho de amizades. Conquista de sorrisos. Lenço para lágrimas. Espaço para abraços.
      O medo de falhar nos impede de tentar, o medo de ser ignorado nos impede de falar. A gente deve tentar, procurando não errar. Deve falar, mas depois de pensar. Não medir palavras às vezes é mais fatal que ficar calado. Omitir-se às vezes é mais fatal que falar besteira. Percebam a sutil diferença entre as duas afirmações antes de dizer que estou falando contradições. Se não tiver percebido, leia de novo e de novo, até entender. Se não entende, pede pro colega ao lado explicar. Fala! Não se torne um ser ignorante por medo de ser ignorado.
      Em um resumo bem resumido das palavras acima, o que quero dizer é que a maior riqueza de nosso testamento vai ser o respeito. Enquanto a gente desrespeitar, não vai ser só difícil conviver, será difícil existir.

Thursday, September 15, 2016

Descuido

          Há duas semanas a decisão do "adeus" se concretizou e foi cruel. Como tempestade você veio e deixou destroços. Vacilo o meu que não soube zelar seu amor e cuidar do teu afeto. O medo de sofrer e te machucar foi maior que a vontade de sorrir ao teu lado. E, por isso, peço perdão.
          Tem sido difícil ficar aqui olhando para um teto branco sem luz no fim do dia. Tenho ponderado todas as opções. Criei planos mirabolantes para te conquistar, nenhum deles infalível o suficiente. A fatalidade das minhas atitudes inconscientes é agora o meu carma. Venho tentando procurar palavras, gestos e loucuras de amor para reparar o que quebrei sem perceber. Para colar de volta os pedaços do seu coração que quebrei tão silenciosamente.
           Olha, eu sei que você não está mais só. Sei que agora tem um alguém ao seu lado e sem medo de segurar sua mão em público. Falando assim parece que eu tinha medo. Não era bem isso. Eu hesitava. Hesitava mostrar para o mundo o que eu era, sou, capaz de sentir por alguém. Eu não tinha e nem tenho medo de que nos vejam. Tenho medo de me expor. Sabe o que é você se jogar na boca do povo e apenas receber vaias? Esse é meu medo. Tenho medo do palco que a vida coloca a gente.
          Por duas semanas venho pensando em todas as minhas falhas. Cheguei a conclusões não muito agradáveis, confesso. Tudo vem se resumindo a frase clichê de términos de relacionamento. A frase que vou dizer sem medo, visto que não fui eu quem colocou o ponto final: o problema sou eu, não você. E é verdade. A minha insegurança excedeu meu amor próprio. A falta de amor próprio não me permitiu dedicação ao meu amor por você. A busca incessante do amor pelo espelho, não me permitiu enxergar além dele. Não era narcisismo, só mais um caso crônico de insegurança.
          Não tenho preparo para te receber em meus braços, pois ainda estou tentando encontrar meu abraço. Quero me enlaçar no conhecimento próprio antes de te oferecer o mundo. Afinal, se te convido à minha casa, é melhor que eu a conheça muito bem para que não tenha surpresas nem armadilhas. No momento, tudo que me resta é pedir perdão. Logo, assim espero, poderei oferecer um pagamento com juros e correção. Você tem o direito e, talvez, o dever de me recusar, mas uma promessa te faço desde já, estou mirando no Sol para encher teu céu de luz e clareza. Cansei dessa de mirar nas nuvens.

Tuesday, August 9, 2016

Singular

Ela vai acordar mais cedo e preparar um café fraco.
Ela vai te deixar lá fora com um amarro forte.
Ela vai te convidar para ir junto, mas algumas vezes vai preferir ir sozinha.
WeHeartIt
Ela vai desarrumar seus fios bem penteados logo depois de penteá-los. E ela vai te fazer rir, mesmo tendo que recomeçar.
Ela vai chorar e rir.
Ela vai te fazer chorar e te presentear com as maiores dádivas da vida.
Ela vai te cegar para o mundo e abrir teus olhos para o universo.
Ela vai ser linda de manhã, e ainda melhor a noite.
Ela vai te fazer pensar que tem asma, e o colo dela vai recuperar teu fôlego.
Ela vai ser a criança mais adulta, e a adulta mais infantil.
Ela vai surpreender, amparar, zelar.
Ela vai dançar sem música, e parar em movimento.
Ela vai se contradizer.
Ela vai te dizer.
Ela vai te amar quando você não o fizer.
Ela vai te amar quando não for correspondido.
Ela vai te amar quando for recíproco.
Ela vai relativizar tua dor, te fazer duvidar do amor.
Ela vai te deixar de ponta cabeça mergulhado em um aquário.
Ela vai te deixar de ponta cabeça. Literalmente.
Ela vai te deixar plantado.
Ela é negra. Ela é branca. Ela é ruiva. Ela é loira. Ela vem em várias versões. Ela tem diferentes jeitos, beijos e trejeitos. Ela é mulher. Ela é homem.
Ela é exatamente o que você quiser que ela seja, contanto que você a queira do jeito que ela é.

Thursday, August 4, 2016

Reverse

          The blue tailored suit gave it away. He was surely out of my league. But for some reason his eyes kept meeting mine. The outlandish chills that ran through my arms and legs made me quit the trip. I had to focus on something closer to my uniform. Society wouldn't accept tailored suits and maid uniforms together. The only time they have an acceptable encounter is in the laundry. Therefore, I wasn't about to defy the laws of nature. Kept looking up only when necessary, talking when answering. I played my role just right. For 5 long minutes. That's the longer I could deviate my way from that astonishing smile. Needless to say, the eyes were staring right back at me. I was uneasy. The lips kissed another mouth and I bumped into a wall and broke three wine glasses. Oddly, no one even turned to stare. The noise didn't bother. Lucky me.
WeHeartIt
          As I picked up the pieces and pulled myself together. The brown shoes came closer. My trembling hands almost dropped the mess. I was waiting for it to go away, but it didn't. The 30 seconds seemed like a life time and I wasn't ready to die yet. And for a closer look of the mirage I've been seen during the whole night, I became a casualty of his chains. His hand reached me before I could react. And there I was, a prisioner of possibilities, waiting for my moment to be free. Or was I? The cold chains felt good in my skin. The grip made me feel quiet and nursed. Speechless statue before mystic god. No words were required from his. With a nod I left. Fast enough to recover my breathe, but not enough to unwind.
          The kitchen felt like escape. The excuses came consecutively. I was strong-willed, if only he didn't find me. If only his aura didn't follow my each and every step. The pull of the knot was starting to bother. That's when he, himself, found me. Not only his aura, not only the trap, him. The eternety of the stare turned my soul younger in spite of the natural course of time. My little inside devil was screaming for that secondhand kiss. However, my professionalism limited my mouth to words. The shyest "how can I help you?" I could pull. Just like in a dream, my wishes were honoured. The gentle hand touched my cheek. The aroma filled my lungs, expelled the oxygen. A dizziness shook me away from heaven and hit me right to the floor.
          Waking up soon made me question my foundations. The strength I thought I had betrayed me upon necessity. The so called dream lasted as long as it should. Not a single trace of the blue after the fall. No brown shoes, no secondhand kiss, no defying laws of society. Poor me, the black dress and white apron. Poor me, the "just a dreamer".
     

Tuesday, March 15, 2016

Do verbo ir

          As gotas caíam aos poucos no asfalto esburacado. Asfalto velho e precisando de reparos. Coração novo e precisando de amor. Mãos vazias precisando de encaixe. E a chuva mascarava sua dor. A velocidade da cidade não vencia seu tambor. Os vultos não viam seus lamentos. Um capuz para não molhar o que já estava encharcado. A ironia do fato também se aplicava à sua vida. Pequenos detalhes, pequenas pessoas, pequenos problemas, grandes desavenças. Enorme ausência.
          Adjetivos de isolamento poderiam cair ao seu redor como a água das nuvens. A quarentena de relações havia sido voluntária. Seria contagioso seu desmantelo? O pavor de infectar uma população a retirou de sociedade. As pernas tremendo menos pelo frio e mais pelo medo. A dor pesando mais que seu peso. O músculo mais forte no peito sustentando todo o corpo. A bolsa roxa implicando cansaço. O cabelo desgrenhado acusando falta de amor próprio. Ou seria apenas falta de amor? A propriedade de si continuava ali. As leis pessoais ainda se aplicavam. E por que o esquecimento do reconhecimento? O espelho já não mais revelava o que o passado lembrava. As poças d'água com imagens distorcidas eram mais fiéis a realidade interior.
          Uma aparência que pouco lhe importava, apenas alertava. Chegou ao ponto final da linha. Chegou numa bifurcação sem saída. Bateu de cara com tijolos. Sentiu mal estar e bem-te-vis. Cada passo, um receio. Cada segundo um depois. Foi em frente como se estivesse sempre atrás. Seguiu fraca e devagar, mas sempre foi. Foi na onda, fora dela, dentro dela, embaixo dela. Foi de corpo nas pedras e morreu na areia. Reergueu no ar, e como um sopro, foi de novo. O esgotamento pessoal sempre deu sinais. Porém, nunca atingiu um limite.
          Limpou a máscara, aplicou um sorriso e "bom dia" nesse escuro. Foi no fluxo, imperceptível. Enganou o mundo como enganava a si. E assim, foi. Foi e irá como sempre desejar.

Tuesday, March 8, 2016

In your own time

          I could see from across the room that she wasn't really paying attention to the screen. That made me wonder: what is she thinking of? Her eyes looked lost and sad, but not quite. It was like she was enjoying once again some kind of feeling, and at the same time she missed it. She didn't miss it hard enough to drop a few tears, but to make her eyes cry without any drop. What can hurt someone so much at the point of making them sad without even crying? I came to the conclusion that maybe the strength that comes together with the pain is able to block some reactions. Just because someone is strong doesn't mean that they don't suffer. The suffering comes in different colors and faces.
          My mind made me wonder of something else: did she run or did she face it? Something tells me she had the guts to face it. On the other hand, the running away surely explains the nostalgia. When you run away, you always keep asking yourself "what if...?". I guess running away is the trickiest choices of all. It makes you believe you are doing the right thing, until you are far enough to not go back. Coward is not a nice nickname. I guess no one wants to be known like that. Be selfish, be cocky, be dumb, but don't be a coward. Worst of all, don't be a fake corageous one. Don't pretend you have the guts to face haven and hell, if you can't even consider the existance of both.
          Unfortunatly, I couldn't put in words the thoughts in her head. Better yet, fortunatly, the complexity of her thoughts were deep enough to get me cofused. Fortunatly,  her eyes were smarter than most people I know. Fortunatly, her intelligence could go beyond school grades. Fortunatly, her emotions were hidden too well for me to unveil them. That girl trapped the strongest feelings so well that they couldn't find a way out of her maze. Her dry eyes and the twisted lips were telling more than it should, but not in a way a could ever explain. I could sense her loneliness. It wasn't like she was searching for company though.
Fonte: weheartit + edições próprias
          In a weird way, I was being pulled into the mistery that was hovering around her. I caught myself staring at her for more than 10 minutes. The 10 minutes I could easily multiply by millions. There was something pleasent in the way her eyes didn't catch anything in the air. Her lost thoughts found me. I couldn't deny the attraction to myself. But the worst part of all: she didn't even notice me. The absence of her inside her body made me think that she was in that point of life that no one is allowed inside. Her drama was her own to solve. There is time in everyone's life that bringing an outsider to your mess only makes it worse. It doesn't matter how hard they try to help, it is never enough. Maybe it is just fear. Maybe we are just afraid someone is going to show us that our drama is nothing compared to all the sadness in the world. Which is not fair to our own feelings. Sometimes we don't need anyone to show us the way, we just want to sit down by the path and cry a bit the mistakes and the sorrows we've seen and done before.
          She was definitely too wrapped up in her own stuff to notice my interest, or even accept my friendly hand. I couldn't see it through, but I decided to respect her time. I let that moment pass through my fingers so she could decide what to do with her own. I couldn't point the direction to someone who didn't want to see. I let her live her life in her own time, while I used mine to catch hers.

Monday, December 14, 2015

Uma caneta para rebobinar

Imagem de boy, light, and indie
Fonte: weheartit
      Estava sentado aqui com minha cabeça em minhas mãos, meus pensamentos no céu e meus sonhos voando por aí. Pensando no quanto seria mais feliz se pudesse rebobinar alguns momentos da vida como um cassete. Uma analogia meio old school e mais poética do que apenas usar o cursor do mouse para voltar uma bolinha ao ponto inicial. Com frequência me apaixono por canções e uso o botão de replay até quebrar (sei que não é possível, mas quebraria se fosse). Essa música me traz memórias de um passado distante, a melodia me faz dançar em lembranças recentes, uma única frase em 3 minutos é capaz de me arrebatar sem volta. Por tantas vezes quis apertar play na trilha sonora da minha vida só para fazer tudo soar mais belo, mais gostoso de se lembrar, ou rever.
      E lá vem aquela uma composição que desencadeia vinte mil sensações. E quando o arrepio acompanha a nostalgia, tudo ganha um novo significado. Meu coração pula descompassado e tudo que mais quero é poder reviver. Sentir os cheiros no ar, seja de flores ou maus odores; sentir o calor na pele, ou o frio nas bochechas. Há lembranças tão claras que besta fechar os olhos que revejo cada detalhe, no entanto, sentir já é outra história. Sentir a lembrança ainda não está ao meu alcance. Sentir o que ela me causa hoje em dia, tudo bem. Afinal, é essa sensação que me faz querer voltar, seja para consertar ou apenas intensificar.
      Tem uma memória, a propósito, que insiste em se esgueirar entre tantas outras. Tenho me perguntado "por que?", tenho tentado entender a fundo porquê ela reaparece com tanta frequência. Por que acordo no meu da noite e meu primeiro pensamento são nuances de seu sorriso? Foram tantas as vezes que te vi sorrir e hoje, só hoje, identifiquei esse danadinho que vem me atormentando. Hoje, felizmente, te vi depois de tanto tempo. Infelizmente, você me lembrou a razão de ser desse sorriso. Hoje descobri que ele não se trata de um sorriso, e sim de uma máscara. Você me fez acreditar por muito tempo que encontrava a felicidade em meus braços. Os mesmos braços que hoje te apertaram com tanta força de tanta saudade. E, coincidentemente, o mesmo sorriso me deu "oi". Ainda hoje, depois de tantos meses, eu não sou capaz de te despir dessa máscara, não é mesmo? Hoje a música que me lembrava você se tornou tão melancólica. Essa manhã o sol brilhava e teu olhar turvo. Estou lutando forte para não te deixar estragar tanto filme que aqui guardei. Tanta música que desperdicei. Tanta melodia que me fazia sorrir e hoje me dá uma sensação completamente oposta.
      Foram dois caminhos que seguiram direções opostas fisicamente. Apenas achei que emocionalmente estivéssemos na mesma página, nem que fosse só em parte do tempo, pelo menos maior parte do tempo. Poderia te agradecer por me livrar de uma ilusão, mas guardo o rancor de nem saber que havia essa ilusão. Minha vontade de voltar no tempo não pode consertar o que eu não sei onde se quebrou. Acho que talvez há defeitos que não podem ser reparados.

Thursday, November 26, 2015

#meuamigosecreto: a tag do momento

      Uma tag polêmica para quem não entende, e reconfortante para quem percebeu seu verdadeiro significado. Um mimimi que só deixa de ser mimimi quando enxergamos o motivo real de cada manifestação. Muito me entristece ver que algumas pessoas ainda não compreendem o motivo da luta, do movimento. No entanto, muito me alegrou e orgulhou ver que tantas pessoas que são meus amigos no facebook abraçaram a causa e se manifestaram. Vale ressaltar que muitas dessas pessoas são meus amigos de facebook e ponto. Pessoas que adicionei ou me adicionaram como amigo, mas nunca trocamos mais de três palavras. Pessoas que, apesar de distantes, me confortaram com as palavras.
      Ainda há muita gente que entende mal o feminismo e insiste em propagar sua ideia errônea sobre ele. Num mundo em que a informação vem como enchente para a gente e que basta um pouco de bom senso para verificar a veracidade delas, ser ignorante é escolha. Mas para quem ainda não entendeu o significado, aqui está:
"s.m. Doutrina cujos preceitos indicam e defendem a igualdade de direitos entre mulheres e homens.
Movimento que combate a desigualdade de direitos entre mulheres e homens.P.ext. Ideologia que defende a igualdade, em todos os aspectos (social, político, econômico), entre homens e mulheres.(Etm. do francês: féminisme)" 
Fonte: Dicio 
      O foco do texto não é o feminismo, mas era importante falar sobre isso para discutir essa tag linda de viver. Da mesma maneira que muita gente entende mal o movimento, muita gente entendeu mal a tag. Por isso me sinto na obrigação de esclarecer o intuito dela. A tag procura a denúncia, o desabafo, a identificação com as situações ali expostas. E como falei, procura abraçar à distância cada uma das pessoas que foram vítimas do machismo, da desigualdade.
      Não adianta discutir com algumas pessoas sobre o assunto, pois pessoas com argumentos sem fundamento, não conseguem validar o argumento do outro. Portanto, expor tais casos torna-se importante. Não é indireta. Nós não queremos que a pessoa responsável pelo trauma se sinta atingida, queremos que quem está lendo se sensibilize. Expor os casos de machismo ajuda a enxergar o machismo. Muita gente é machista sem saber, seja mulher ou homem. Nossa sociedade, infelizmente, nos ensinou e ensina muito sobre o machismo e como ser machista, por isso precisamos mudar. Os casos que seguem a tag não são mimimi, são a realidade, a triste realidade. E como a tag, esse texto é para abrir os olhos.
      Vamos falar de alguns casos e refletir sobre eles? Vamos!
#meuamigosecreto era mais que meu amigo, mas isso não impediu que ele abusasse de mim bêbada em um chão de banheiro falando "não" enquanto me tapava a boca
       "Mas se eles eram mais que amigos, qual o problema?" argumento ridículo para alguns, mas válidos para quem ainda não enxerga a seriedade de ser obrigado(a) a fazer algo que não quer. Quando alguém diz não, é não. Não tem algo mais nosso que nosso próprio corpo, e até acerca dele não podemos decidir o que fazer ou deixar de fazer?

#‎meuamigosecreto‬ já ganhou vários prêmios, tem mestrado, artigos publicados, todo mundo acha que ele é o máximo... mas ele acha que ficar bêbado e usar drogas é desculpa pra te constranger na balada, afinal, depois ele nem vai lembrar mesmo, né?
      E para quem acha que títulos e prêmios intelectuais definem a personalidade e conduta de alguém, está aí um bom exemplo de que não é bem assim que a banda toca. Ele vai esquecer o que fez, mas ela vai lembrar, não é mesmo? Quem faz a cena é ele, mas quem passa o vexame é ela.

‪#‎MeuAmigoSecreto‬ espancou a ex-namorada quando ela disse estar grávida. Enquanto chutava violentamente a barriga dela, berrava que ela era uma vadia que não sabia fechar as pernas. Ele era um coitado seduzido. Hoje ele posta conteúdo pró-feminismo no Facebook.
      Quando falamos que atitudes falam mais do que palavras. Ele pode ter se arrependido? Pode. Pode ter mudado? Pode. Mas será que ele. pelo menos, pediu desculpa? Será que ele se traumatiza tanto quanto ela? Não sei o que ele pode fazer para recompensá-la, ou até se existe algo que a faça. Sei apenas que antes mesmo de ferir o direito dela, de machucá-la fisicamente e psicologicamente, ele poderia ter parado por 2 segundos e refletido. Colocar a mão na cabeça, respirar fundo, suar frio agir como alguém que se solidariza e procura ajudar. Se ele tivesse feito qualquer uma dessas coisas, será que ele teria batido nela mesmo assim?

‪#‎meuamigosecreto‬ manipula e destrói a auto estima das meninas com quem se relaciona e deixa claro que elas não podem terminar com ele porque ninguém mais vai querer ficar com elas, que ele está fazendo um favor
      Vamos começar com os mindgames? Que tal tentar entender porque alguém tem que rebaixar, para se sentir nas alturas. Cadê a ideia linda de dar as mãos e crescermos todos juntos. Aliás, que tipo de favor é esse que invés de ajudar, só atrapalha? Ser dono do próprio umbigo não significa colocá-lo no centro do universo.

‪#‎meuamigosecreto‬ se posiciona contra a essa tag, diz que mandar indireta não ajuda em nada e que todas nós devemos resolver nossas questões pessoalmente. Ele só esqueceu de dizer que o mundo não está preparado para a sinceridade de sentimentos de milhares de mulheres que se doem e sofrem o machismo na pele diariamente, e que provavelmente ele escutaria ela falar e sairia dizendo para os amigos "aquilo é uma doida, desequilibrada e grosseira".
      Preciso falar mais alguma coisa?


      A tag não é indireta. Se fosse indireta, tinha tanta gente se doendo que não ia ter Pablo que desse jeito. Espero que nessa altura do texto, você que está lendo, tenha entendido a beleza e a necessidade da tag. Espero que, você que já entendia, tenha se sentido ainda mais representado ou representada. Falo nos dois gêneros sim, porque apesar da grande maioria ser um desabafo vindo de mulheres, vale lembrar que o machismo ataca de maneira independente. Homens e mulheres sofrem diariamente com comentários e atitudes machistas. Quer um mundo igualitário? Vamos começar respeitando, se conhecendo e reconhecendo.
      Espero que o momento dessa "tag" jamais passe.
     

Monday, November 9, 2015

Terceiro - Capital Belga

      Um pouquinho atrasada, mas queria muito falar da minha primeira viagem pela Europa estando tão perdida quanto a pessoa que estava comigo. Claro, morar numa cidade nova causa o mesmo impacto, ou semelhante, ao de viajar para uma cidade completamente estranha. As sensações que te são proporcionadas são inigualáveis em cada viagem, mas elas repetem padrões. A primeira viagem foi para Bruxelas. Primeira vez que viajei só nesse continente imenso e cheio de história. Para começar, devo agradecer imensamente à tecnologia que me permitiu chegar ao hostel sem muitas complicações. Óbvio, ainda me perdi pela estação em que meu ônibus parou, fiquei com medo de ter entrando no tram errado, passei umas 52 (com exagero) paradas para finalmente acabar com minha agonia e chegar na parada desejada. Não era o destino final, mas ainda assim já é uma realização maravilhosa. Saber que você não se perdeu em uma cidade que nunca foi, em um país que a língua mãe você não entende, já é um bom começo. Andei um pouquinho para chegar no hostel, mas achei sem muito esforço e sem muita agonia, por uma vez na vida. Chegar sozinha em um hostel e perceber que você é o único ser do sexo feminino naquele momento é um pouco assustador, devo dizer. Senti como se uma matilha de lobos me observasse como uma presa em potencial. Uma hora depois fui salva pelo queridíssimo companheiro de viagem e pudemos começar a traçar a viagem.
      Devo dizer que nossos planos antes de chegar mudaram completamente ao chegar. Dois inocentes que pensavam que seria possível viajar três cidades em três dias. Dois doentes, literalmente, que decidiram que Bruxelas era aventura suficiente para três dias. Se não fosse a falta de euro, de saúde e disposição, se não fosse a falta de planejamento, aí sim poderíamos ter cumprido com os planos. No entanto, eram muitos empecilhos para umas só viagem.
      Não sei ao certo como cada um gosta de viajar, mas em Bruxelas eu descobri como eu gosto. O bom de viajar é sentir a cidade, curtir, não planejar à risca cada minuto. Para aproveitar, não rola cronometrar. Sem muitos planos, no primeiro dia a gente caminhou pelo centro da cidade. Perdeu a noção das estações e ficou feito barata tonta procurando um jardim inexistente. Repare, flores não estão a vista durante todo ano, e dois aspirantes a biólogos demoraram um bom tempo para chegar a essa conclusão. Quando nos encontramos desesperados acabamos fazendo umas burradas como essa, é normal. Há males que vêm para o bem, e de tanto errar acabamos descobrindo coisas maravilhosas: galerias com lojas de chocolate lindas, porém caras; mercadinhos que mais pareciam um submundo; pessoas tão perdidas quanto a gente; e o melhor de tudo, encontrar, por acaso, o que estávamos procurando. Desse modo chegamos ao Delirium Café, o qual faz jus à sua fama, mas decepcionou dois brasileiros que estavam com sede de cervejas com gostinho brasileiro. Porque brasileiro saudosista é assim, paga o dobro ou o triplo do preço só para sentir sua naçãozinha de novo. No entanto, essa não foi a vez. Apesar do extenso cardápio com cervejas do mundo inteiro, a que desejávamos estava em falta. Como todo bom turista, não saímos de mãos vazias. Delirium abaixo, papo descontraído e deixando a nossa marca na mesa de madeira, saímos feliz e satisfeitos com a conquista de encontrarmos aquele lugar impossível de perder quando se está em Bruxelas.
      Os dias seguintes foram mais bem planejados, visto que tínhamos tempo e internet no hostel para evitar qualquer confusão quando estivéssemos no meio da cidade. De muita utilidade foi ter um celular com bateria duradoura e com GPS. Demorei algumas outras viagens para pegar as manhas do GPS, mas isso falo em outros capítulos. É possível que daqui há cinco anos ainda estarei escrevendo coisas sobre esse ano de ciências sem fronteiras com dicas, sensações, ideias. Foi muita experiência diferente que fica difícil compilar em poucas histórias, sem contar que alguns detalhes não vêm na hora que a gente que, não é mesmo?
      Enfim, o texto já está bem grandinho e faz meses que estou com o rascunho dele. Então deixemos ele por aqui. Organizarei melhor o cronograma de Bruxelas para depois dizer que valeu e não valeu a pena.

Thursday, October 1, 2015

Falando em...

      Que bonito! Mais uma vez deixei o blog a mercê das aranhas virtuais. Se tem uma coisa complicada para mim é manter hábitos. No entanto, como toda vez que me sinto mal, farei mais uma promessa pessoal de voltar a escrever. Escrever me alivia, me faz falta, me faz viajar em histórias reais e fictícias, às vezes até os dois tipos ao mesmo tempo. Quero escrever sobre a experiência de morar fora por quase um ano, dar dicas de viagens, mas sem deixar de lado meus bons velhos textos tirados lá do fundinho da minha imaginação.
      Falando em inspiração, devo dizer que fiquei muito decepcionada ao ver que um dos blogs que sempre me deixou preenchida de ideias para botar no papel (ou aqui). Era um blog que as próprias leitoras escreviam. Mas oi? Isso mesmo. As leitoras mandavam suas histórias, seus dramas, seus amores, suas saudades. Isso me inspirava, até hoje inspira. Algumas dessas histórias me marcaram e o mais engraçado é que nem conheço as autoras, mas sempre há o poder da identificação. Você lê aquelas palavras escritas por outra pessoa e podia jurar que foi você quem escreveu. É uma comunidade que se abraça com palavras e enxuga as lágrimas mesmo distante, ou sorri a felicidade do outro mesmo nem conhecendo. Era bonito, é bonito. Ele ainda está lá, afinal, apenas nem tem tido atualização desde 2014.
      Falando em data, 2014 foi um ano de mudança para mim também. Todo ano tem alguma mudança que marca, mas 2014 e 2015 tiveram transições fortes e ainda têm. Posso ter perdido uma fonte de inspiração, mas a vida me mantém cheia nesse aspecto. Pessoas, acontecimentos, observações. As pessoas podem te surpreender com coisas infinitamente maravilhosas, te proporcionando amizades tão grandes em tão pouco tempo que você achou que não seria possível. As pessoas também te decepcionam, são capazes de jogar anos para o ar como se fossem horas. Os acontecimentos podem ser impressionantes por um simples detalhe: uma frase que marca uma viagem, um mico que sempre é bom pagar de vez em quando, uma pegadinha que você faz com o colega, uma música que fica na sua cabeça. Já as observações, elas são instantaneamente um exercício para a mente criativa. Nem preciso falar muito por essa última, pois ela já fala por si só.
      Falando em vida e nas possibilidades que ela te proporciona, estou naquela fase em que a vida parece que ta tirando um descanso das aventuras e te deixando no tédio. Aquele tédio que mesmo tendo mil coisas para fazer, você faz absolutamente nada. Para exemplificar essa inutilidade que me assola: faz pelo menos três dias que escrevo esse texto. Três dias sendo muito otimista. E vamos terminar sem muita criatividade, porque é a vida...